Durante uma coletiva de imprensa no último dia 11 de março, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, declarou pandemia de Covid-19. Ele afirmou que a OMS está “profundamente preocupada” com o níveis “alarmantes” de disseminação da doença e de “inação”, mas que o fato de o surto global ter evoluído para uma pandemia não significa que seja impossível reverter a situação atual.

O termo “pandemia” é usado para descrever situações em que uma doença infecciosa ameaça muitas pessoas de forma simultânea no mundo inteiro. No Brasil, as secretarias estaduais de saúde contabilizam 301 pessoas infectados e, nesta terça-feira (17), foi registrada a primeira morte no estado de São Paulo.

Em conversa com a ANAMT, o coordenador médico da Saúde do Trabalhador do Hospital Sírio-Libanês, Dr. Octávio Augusto Oliveira, fala sobre diversos aspectos do novo coronavírus e como os médicos do trabalho podem ter ações mais efetivas dentro de suas organizações.

De que forma o médico do trabalho pode gerenciar a situação na organização onde atua caso algum funcionário esteja sob suspeita ou tenha contraído o novo coronavírus?

Os médicos do trabalho nas empresas devem seguir as orientações do Ministério da Saúde:

– Orientar institucionalmente que os trabalhadores devem adiar e não viajar para os países da lista do Ministério da Saúde.

– Orientar o afastamento por 14 dias dos casos suspeitos de infecção do coronavírus. Caso suspeito: pessoas que apresentarem febre e/ou mais um sintoma gripal, como tosse, falta de ar ou fraqueza e que tenha tido contato com algum paciente suspeito de contaminação pelo Covid-19 ou que tenha vindo nos últimos 14 dias de um dos países listados pelo Ministério da Saúde.

– Todos os casos suspeitos devem usar máscara cirúrgica para assim diminuir a chance de contaminação para outras pessoas. Casos suspeitos com sintomas gripais-like brandos devem fazer repouso e isolamento domiciliar por 14 dias. Se os sintomas envolverem febre por mais de 48 horas e/ou falta de ar, então estes pacientes devem ser orientados a procurarem atendimento médico nos hospitais de referência.

– Orientar a higienização das mãos com água e sabão ou álcool gel. Essa é a medida mais eficiente para evitar a transmissão do Covid-19, uma vez que o vírus é transmitido por gotículas de saliva e/ou secreções oro-faríngeas. Atentar que o vírus pode ficar viável em meio inerte (superfícies, mesas de trabalho, corrimão, telefones, teclados, etc) por cerca de nove dias e então todas essas áreas nas empresas devem ser correta e periodicamente higienizadas.

– Orientar campanha de vacinação da população trabalhadora contra a gripe. Assim protege-se os trabalhadores dos vírus da gripe mais circulantes e facilita-se o diagnóstico de casos novos do Covid-19.

– Dependendo da situação e de como o plano de contingência ao Covid-19 avança, é possível também os médicos do trabalho instruírem nas empresas o afastamento dos trabalhadores, mesmo assintomáticos, que estiveram nos último 14 dias na lista dos países nível de alerta decretada pelo Ministério da Saúde. Neste caso, o ideal seria as empresas promoverem o trabalho remoto domiciliar.

De que forma uma campanha de prevenção dentro das empresas pode ter mais efetividade?

Apesar de já haver testes, a vacina contra o Covid-19 ainda não existe. Então, a campanha para as empresas deve ser pautada em informação de qualidade. Os trabalhadores devem ser incentivados a manterem boas práticas de higiene das mãos com água e sabão ou álcool gel, além da etiqueta da tosse: cobrir a boca com a parte interna dos braços ou tossir com a proteção de lenços descartáveis e higienizar sempre as mãos após esses procedimentos.

O uso da máscara deve ser bastante criterioso. Está indicada apenas para os pacientes que são casos suspeitos ou que já tenham o diagnóstico do Covid-19 ou para equipe de saúde que atende os casos suspeitos ou confirmados. A ideia é diminuir a chance de contaminação por gotículas durante a tosse ou espirro para as outras pessoas. Pessoas assintomáticas que não viajaram e não mantêm contato com casos suspeitos não possuem indicação do uso da máscara. É valido lembrar que, ao usar as máscaras, essas devem ser trocadas a cada 2 horas.

O sistema imunológico das pessoas contaminadas reage em sua imensa maioria satisfatoriamente e controlam a doença levando a cura espontânea. Para isso, os trabalhadores e a população em geral necessitam manter bom estilo de vida: dormir em quantidade e qualidade, fazer alimentação balanceada e adequada, boa hidratação, praticar atividades físicas e gerenciar o estresse. Dessa forma, o sistema imunológico encontra condições adequadas para reagir satisfatoriamente ao Covid-19 bem como outras infecções. A taxa de letalidade do Covid-19 está entre 2 e 2,5%, sendo mais grave em imunocomprometidos, idosos e pessoas com doenças crônicas.

Quais as formas de contaminação mais conhecidas?

A transmissão dos coronavírus costuma ocorrer pelo ar ou por contato pessoal com secreções contaminadas como gotículas de saliva; espirro; tosse; catarro; contato pessoal próximo, como toque ou aperto de mão; contato com objetos ou superfícies contaminadas; seguido de contato com a boca, nariz ou olhos.

Outras formas de transmissão, como na gestação, aleitamento materno ou por via sexual ainda não possuem comprovação.

Como deve ser feita a notificação de casos suspeitos ou confirmados?

Os casos suspeitos de infecção pelo coronavírus devem ser notificados pelo serviço de saúde que atender o paciente imediatamente, em até 24 horas. A comunicação deve ser feita à respectiva Secretaria Municipal de Saúde e ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde estadual. As informações devem ser inseridas na ficha de notificação definida pelo Ministério da Saúde.

Para quais hospitais os pacientes devem ser encaminhados?

Ao atender um caso suspeito ou confirmado, o médico do trabalho deve orientar a equipe de saúde a colocar a máscara cirúrgica no paciente. Se o paciente apresentar um quadro gripal-like brando – febre baixa com pouca duração, ausência de falta de ar, tosse pouco frequente e bom estado geral – o paciente deve ser orientado a permanecer em repouso domiciliar. Se os sintomas gripais-like forem mais intensos – febre por mais de 48 horas, mal-estar geral e/ou falta de ar – então o paciente deve ser orientado a procurar um serviço médico de referência. Na rede pública, o Ministério da Saúde tem mais de 40 hospitais no país para este tipo de atendimento e o mapa por estado pode ser conferido neste link.

O número de mortes e a velocidade da propagação assusta muito. É fato que o novo coronavírus é mais letal e mais rápido na disseminação?

O Covid-19 apareceu há cerca de 3 meses e, no momento, é muito cedo para afirmar como é ou será seu comportamento. Até o momento o Covid-19 não apresenta maior letalidade que o SARS ou MERS. Sua taxa de letalidade é considerada ainda baixa e vale lembrar que 98% dos acometidos se recuperam.

Existe um tratamento medicamentoso capaz de conter os sintomas?

Não há no momento tratamento medicamentoso para curar o paciente. Os medicamentos prescritos são para os sintomas de febre, tosse e desconforto.

O espectro clínico da infecção por coronavírus é muito amplo, podendo variar de um simples resfriado até uma pneumonia severa. No entanto, neste novo coronavírus não está estabelecido completamente o espectro, necessitando de mais investigações e tempo para caracterização da doença.

Segundo os dados mais atuais, os sinais e sintomas clínicos referidos são principalmente respiratórios. O paciente pode apresentar febre, tosse e dificuldade para respirar.

Em avaliação recente de 99 pacientes com pneumonia e diagnóstico laboratorial de Covid-19 internados no hospital de Wuhan, aponta-se maior taxa de hospitalização em maiores de 50 anos, sexo masculino. Os principais sintomas foram febre (83%), tosse (82%), falta de ar (31%), dor muscular (11%), confusão (9%), dor de cabeça (8%), dor de garganta (5%), rinorréia (4%), dor no peito (2%), diarréia (2%) e náusea e vômito (1%).

Segundo exames de imagem, 74 pacientes (75%) apresentaram pneumonia bilateral, 14 pacientes (14%) apresentaram manchas múltiplas e opacidade em vidro fosco e 1 paciente (1%) evoluiu com pneumotórax​​.

Os trabalhadores estão sujeitos a outras doenças tão letais quanto o novo coronavírus, como influenza, sarampo, tuberculose. Os médicos do trabalho devem promover vacinas no próprio local de trabalho?

No Brasil, temos várias outras doenças circulando na população e entre trabalhadores com destaque para dengue, sarampo, gripe e caxumba. Dependendo da região do país podemos ainda citar febre amarela e malária.

É muito importante o médico do trabalho e o serviço de saúde ocupacional como um todo atuarem em atenção primária e na promoção da saúde da população trabalhadora. A empresa é um excelente espaço para promover qualidade de vida com campanhas e programas voltados não só para as doenças infectocontagiosas endêmicas ou epidêmicas, mas também para as doenças crônico-degenerativas como hipertensão arterial, diabetes, obesidade e as doenças mentais. Passamos boa parte das nossas vidas no trabalho e nada melhor do que informação para prevenção!